OS DONS ESPECIAIS DOS HUMANOS
Desde que fui convocado, para agradável surpresa minha, para o glorioso time dos autistas, como ponta direita, do tipo driblador, por um renomado “técnico” cabeça chata, anos atrás, que me presenteou, logo em seguida, com algumas ponderações abalizadas sobre o insight daquele momento tão especial, para mim, na tentativa, suponho eu, de não me desestabilizar emocionalmente, algo deveras improvável, para não dizer inviável, dediquei-me arduamente à compreensão acerca do processo biológico, imerso nas profundezas abissais dos genes, que desencadeia, nos indivíduos, uma postura comportamental um pouco diferente da usual, diante do mundo, bem como procurei interpretar à luz da razão científica de que forma as “pessoas normais” poderiam conviver com mais protagonismo e interatividade conosco, sem que fosse necessário rotular-nos de “especiais”, o que é uma maneira pretensamente educada de eles dizerem que somos estranhos no ninho.
Em 1943, o psiquiatra norte-americano Leo Kanner descreveu pela primeira vez o autismo ao analisar 11 crianças, apontando como característica central do transtorno “a incapacidade de se relacionarem de uma forma normal com as pessoas e as situações do início da vida”.
Apesar dos avanços científicos registrados, na atualidade, a origem do TEA (Transtorno do Espectro Autista) ainda não é totalmente compreendida, por que estampa uma condição complexa que não tem uma única causa. Assim, o consenso entre os especialistas é de que o autismo seja causado por fatores genéticos que alteram o desenvolvimento do cérebro, afetando, portanto, a comunicação social, levando os portadores dessa disfunção da conectividade neural a apresentarem comportamentos repetitivos, além de interesses restritos.
A ideia de que a Genética possui um papel relevante no surgimento do autismo é reforçada por diversas observações de estudiosos do assunto. Primeiro, há mais homens do que mulheres com autismo. Segundo, irmãos de pessoas com autismo têm maior chance de também ter o transtorno. Terceiro, gêmeos idênticos (monozigóticos) têm uma alta probabilidade de ambos terem autismo se um deles tiver. Por fim, é importante frisar que quanto mais próxima for a relação genética entre familiares, maior será a probabilidade de ter casos relacionados ao TEA.
Distúrbios do comportamento como agitação psicomotora, agressividade (consigo e com os outros) e impulsividade são situações bastante frequentes e que causam grande prejuízo no convívio social e familiar. É importante, portanto, que essas dificuldades sejam descritas e abordadas de forma adequada em consultas médicas visando a otimização do tratamento, se este for o caso, objetivando-se, com isto, a diminuição de possíveis sofrimentos seja individual ou de familiares.
A Síndrome de Asperger, denominada de “autismo leve”, está associada diretamente àqueles indivíduos que têm habilidades de linguagem e cognitivas preservadas, minimizando, assim, em termos qualitativos, as dificuldades prementes enfrentadas por essas pessoas no seu cotidiano.
No entanto, sabe-se, atualmente, que os portadores dessa síndrome não interagem bem, socialmente, devido apresentarem interesses focados, podendo até, em alguns casos, eles exibirem repetidos comportamentos.
Recordo-me que ao chegar em casa, todo contente, relatando estes fatos à minha mulher, que é psicopedagoga e lida com crianças autistas, todos os dias, no seu trabalho, na Escola Natália Albuquerque Lopes, ela olhou-me com um misto de admiração e surpresa, dizendo-me, com a delicadeza de uma flor de bogari, olhando-me bem nos olhos, que eu não tinha autismo coisa alguma, mas, sim, TADH, em alto grau, algo muito diferente, e que bastava ler um pouco mais a respeito do assunto para constatar, de vez, que eu estava enganado na suposição que fizera.
Encabulado, entristecido por perder a titularidade que ganhara na valorosa seleção desses humanos especialíssimos, pelo dileto amigo Rocha, que trabalha no jurídico da Apeoc – Camocim, após ter respondido a um questionário específico que versava sobre essa temática, aceitei, não de muito bom grado, pesquisar sobre o tal TADH.
E assim o fiz!
Não deu nem tempo de navegar direito pelos mares bravios da internet!
Após uma breve cabotagem, vi, num site de Medicina, que logo divisei, que o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é um distúrbio neurobiológico, associado à Genética, normalmente detectado na infância e que, com frequência, persiste, também, na vida adulta, sendo caracterizado por três principais sintomas interligados: falta de atenção, hiperatividade e impulsividade, desencadeando impactos no comportamento, cognição e na interação social desses indivíduos.
Fiquei mudo de espanto!
Puxa! Que coisa sô!
Agora, abduzido aos quadros da nova equipe neural, vou dizer ao responsável-mor, quando descobrir quem é, que, se ele concordar, posso jogar tanto no meio campo, na ponta direita, mas jamais como ponta esquerda, porque ser “canhota”, vá lá, não faz muito o meu estilo.
Logo depois que soubera do meu diagnóstico de pertencer ao glorioso esquadrão verde-amarelo dos autistas, o que muito me alegrou, fiz uma reflexão profunda sobre minhas atitudes, perante à vida, concluindo, por fim, que, muito embora fosse um urubu, sempre almejara ser uma águia para voar acima das nuvens - e ver mais de perto o brilho do sol.
Ledo engano!
Paciência!
Diante desses fatos pontuais, que ensejaram a mim pensamentos de aceitação, tentarei, doravante, mesmo sendo um velho abutre, buscar distender minhas asas, na sua plenitude, ao planar, seguindo o curso das correntes aéreas, por horas a fio, a fim de que possa contemplar a perfeição do mundo criado por Deus, contentando-me com o que sou.
AVELAR SANTOS
A\S CAMOCIM-CE
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